Friedman, Hayek, Buchanan e a democracia (II)

Agora, depois desta conversa toda, levanta-se uma questão (que parece-me ser onde o Carlos Guimarães Pinto quer chegar aqui): mas isto interessa alguma coisa? Mesmo que alguns liberais sejam ou tenham sido simpatizantes de ditaduras (mesmo que transitórias), pode-se concluir alguma coisa acerca do liberalismo em geral (e o artigo de Louçã chama-se efetivamente “A Traição dos Liberais”, não “A Traição do Liberalismo”), ou mesmo sobre o conjunto das ideias desses liberais específicos (hei, nalguns assuntos pontuais se calhar Hayek até  poderia ocasionalmente concordar com Trotsky)? Até se poderia argumentar com o tal liberalismo progressista do século XIX (que eu até acho que Louçã elogia demais, mas enfim…) para demonstrar que isso é uma particularidade de alguns autores liberais e não algo intrínseco.

No entanto, penso no post anterior ter demonstrado uma continuidade lógica entre algumas premissas teóricas bastante populares entre os liberais e as tais conclusões de apoio a algumas “ditaduras temporárias”, não é apenas “culpa por associação”.

Mas eu pegaria também noutro ponto – a tal viragem conservadora (e ocasionalmente autoritária) do liberalismo a partir do século XX efetivamente ocorreu, e provavelmente representa algo com raízes mais profundas (e não um acaso de alguns pensadores específicos). Nem precisamos de ir ao Pinochet nem a esta ou aquela ditadura, podemos ficar por algo muito mais comezinho e inofensivo: a elevada popularidade do conservadorismo social que se vê entre os liberais portugueses, a ver pelos blogues, grupos de facebook, etc. (e como digo, isto mesmo sem entrar na popularidade de memes baseados em helicópteros). É verdade que em grande parte das “questões fraturantes” é possivel ter argumentos liberais tanto para a posição “progressista” como para a “conservadora”, mas em quase todas elas grande parte dos liberais portugueses tentam arranjar maneira de defender a posição conservadora (ou, no máximo, ignorar o assunto), muito mais do que me parece que seria de esperar por puro acaso estatístico (mas atenção que isto não se aplica ao partido Iniciativa Liberal, que até é muito pouco socialmente conservador, mas me parece largamente desprezado em grande parte dos meios liberais como “bloquistas que não querem pagar impostos”).

Eu suponho que parte disso até possa ter a ver com sentimentos de proximidade afetiva – os liberais modernos tendem a ver os socialistas como inimigos principais (porque, efetivamente, a maior parte das restrições ao liberalismo nas “democracias burguesas” modernas vêm mais da esquerda socialista ou social-democrata do que da direita conservadora ou nacionalista) e portanto os conservadores como aliados; logo, isso provavelmente leva a uma heurística de “na dúvida, fica com a direita contra a esquerda”. Os liberais do século XIX se calhar funcionavam ao contrário – tendo o tradicionalismo legitimista como inimigo principal, tendiam a alinhar-se com posições “progressistas” mesmo quando não fosse uma implicação lógica dos princípios liberais (p.ex., não me parece muito claro qual o argumento liberal para expulsar ordens religiosas, tirando o  anticlericalismo fazer parte da “penumbra liberal” do século XIX).

Mas suponho que o ponto principal é mesmo….. o grau de desenvolvimento das forças produtivas. Nomeadamente, a progressiva concentração do capital e redução do número de trabalhadores por conta própria (deixem lá as conversas de “empreendedorismo” ou de “gig economy”; isso é um epifenómeno e a tendência é para o trabalho por conta própria diminuir, não aumentar), que eram uma base social importante do liberalismo tradicional. Paradoxalmente, o conservadorismo (historicamente mais desconfiado da democracia) conseguiu sair-se melhor na política democrática, apelando também a assuntos que têm ressonância em muita gente independentemente da classe social (segurança, religião, patriotismo, etc.); mas entre as pessoas que não são culturalmente conservadoras, há uma grande correlação entra a classe social (e suspeito que a dimensão assalariado ou trabalhador por conta própria é mais relevante do que a mais falada de “pobres” ou “ricos”) e serem (ou pelo menos votarem nos) socialistas ou liberais. Provavelmente é essa a razão porque muitas sondagens indicam que a combinação ideológica “direita na economia, esquerda nos costumes” (que NÃO É A MESMA COISA que “liberalismo”, mas tem alguma proximidade, ainda que ache que já tenha tido mais…) parece ser a mais rara que existe no conjunto da população (mesmo que bastante popular em certas elites socio-económicas).

[Um autor, entre o liberal, o conservador e o reacionário, que Louçã não referiu no seu artigo mas seria talvez dos que melhor explicará o fenómeno – Joseph Schumpeter; desde a sua teoria que o domínio da economia por grandes empresas diminui a quantidade de pessoas motivadas para defender o capitalismo à de que os capitalistas são demasiado cerebrais para conseguir comandar politicamente e portanto precisam da proteção das elites pré-capitalistas – já agora, é interessante, para quem o consiga – o texto não é de acesso livre -, ler a análise de Schumpeter a “O Caminho da Servidão”, em que ele claramente se mostra muito mais conservador que Hayek, ou pelo menos que o Hayek de 1946]

E perante o desaparecimento do liberalismo enquanto movimento político organizado relevante, isso gerou uma tendência entre alguns intelectuais liberais para se colarem ao conservadorismo e/ou talvez para se terem tornado mais cépticos da democracia (para falar a verdade, não estou certo que liberalismo do século XX seja mais céptico da democracia que o do século XIX… ainda me lembro da minha professora da História do secundário, sempre que se flava das revoluções liberais do século XIX, repetir “não se esqueçam que os liberais são antidemocratas”; palpita-me que o que há em especial em Hayek ou Pareto não é tanto a desconfiança pela democracia, mas a disposição para defender ditaduras – e não, não é a mesma coisa, mas vou explicar explico melhor num post posterior).

Atenção que não estou a dizer que isso se deva a uma manobra deliberada – suspeito que é mais uma seleção darwiniana: à medida que o ambiente se torna mais propicio às versões mais conservadoras do liberalismo, são os autores liberais mais conservadores que ganham audiência, que influenciam governos, mesmo até os que são mais alvo de críticas, e portanto se tornam também mais influentes no mundo intelectual.

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