17 anos do Vento Sueste

O Vento Sueste faz hoje 17 anos; alguns posts deste último ano (eu inicialmente tinha escrito “este ano não escrevi quase nada, mas de qualquer maneira, alguns posts deste último ano”, mas afinal até ainda escrevi algumas coisas):

Sobre a recente mudança de sentido da palavra “libertário”, O anarquismo individualista e o anarco-capitalismo e Libertários Left & Right E9, ainda de dezembro de 2021 (mas já depois de dia 5) – em rigor, só o segundo é um post meu (o primeiro é um link para um artigo de Diogo Duarte e o terceiro um link para um dos meus vídeos com o Carlos Novais)

O porquê da associação entre o populismo de direita e o “covid-negacionismo”, ainda de dezembro de 2021

Libertários: Left & Right: E10 Roma, ainda de dezembro (é mais um dos vídeos do CN comigo, mas este deve ter sido aquele em que a conversa se prolongou mais)

“Socialista de iPhone”, de janeiro de 2022 (sobre se o uso dessa expressão supostamente pejorativa faz sentido)

A Iniciativa Liberal está à direita ou à esquerda do PSD?, de fevereiro de 2022

O aumento do preço dos combustíveis aumenta as receitas do estado?, de março

Em defesa do autovoucher, de março

Em 2014 houve um “golpe de estado” na Ucrânia?, de março

Bolívia 1952 – a revolução esquecida da América LatinaAinda as “revoluções esquecidas” da América Latina, de abril

A esquerda que acha que a Ucrânia deveria render-se para acabar a guerra, de abril

Cidadania e Desenvolvimento em 2030 e Ainda sobre a Cidadania e Desenvolvimento, de julho

Divisão no movimento comunista internacional sobre a guerra na Ucrânia?, de julho

Mas o que é afinal a “ideologia do género”?, de agosto

A minha ideia de uma prequela para “Os Três Duques”, de agosto

Elencos multirraciais em adaptações de obras de Tolkien, Ainda os elencos multirraciais em obras de fantasia e Se existissem sereias, elas viveriam provavelmente nos trópicos, de setembro

“Monopólios” e “desinformação”, sobre as redes sociais, de outubro

“Freedom of speech”, “freedom of reach” e os dilemas das redes sociais, de novembro

“Freedom of speech”, “freedom of reach” e os dilemas das redes sociais

O que o Elon Musk apresenta aqui (“New Twitter policy is freedom of speech, but not freedom of reach. Negative/hate tweets will be max deboosted & demonetized, so no ads or other revenue to Twitter. You won’t find the tweet unless you specifically seek it out, which is no different from rest of Internet.” ) até acaba por ter bastante lógica.

O que me parece um dilema das redes sociais é a relação entre ter ou não moderação e o ter ou não algo como “posts sugeridos” (aqueles “os seus amigos seguem esta conta”…): uma rede social com 0% de posts sugeridos (em que as pessoas só veem o que seguem ou o que vão à procura) pode ter 0% de moderação (na fundo, é quase assim que o conjunto da internet funciona); mas a partir do momento em que a rede começa a sugerir coisas aos utilizadores, acaba por ter alguma responsabilidade moral (independentemente do que as leis ou termos de serviço digam) sobre as coisas que sugere ou promove.

Uma solução para esse dilema pode ser criar dois níveis de conteúdos: um “seguro”, sujeito a censura/moderação, de onde venha o material que é sugerido aos utilizadores, e outro mais “da pesada”, sem censura mas que não apareça nas sugestões. No fundo, como uma cidade em que podemos ir ver as montras na rua principal sabendo que só vamos encontrar pessoas e estabelecimentos normais, mas havendo depois uma ruelas onde nos podemos meter e encontrar uns bares manhosos, se formos de propósito à procura. E parece-me que é algo parecido com isso que o Musk está a anunciar.

[Como penso que já escrevi algures, suspeito que parte do que permite que – no mundo real – estejam à venda sem problemas livros como “Da Greve Selvagem à Autogestão Generalizada” ou “Apologia da barbárie: Ernst Jünger, Yukio Mishima e Ezra Pound numa perspectiva dissidente” é que a maior parte das pessoas não estão constantemente a vê-los nas montras sempre que vão a alguma livraria ou passam lá ao pé]

Alguns referendos ontem nos EUA (II)

A respeito dos referendos que falei aqui, os resultados de alguns que na altura não se sabia:

Michigan Proposal 3, Right to Reproductive Freedom Initiative – aprovada

Missouri Amendment 3, Marijuana Legalization Initiative – aprovada

Oregon Measure 112, Remove Slavery as Punishment for Crime from Constitution Amendment – aprovada

South Dakota Initiated Measure 27, Marijuana Legalization Initiative – rejeitada

Além disso, o leitor Luis Ferreira chamou a atenção para outro referendo no Nevada, que suponho seja o Nevada Question 1, Equality of Rights Amendment, que estabelece que “”Equality of rights under the law shall not be denied or abridged by this State or any of its political subdivisions on account of race, color, creed, sex, sexual orientation, gender identity or expression, age, disability, ancestry or national origin.” (este é daqueles que ainda não se sabe o resultado)

Alguns referendos ontem nos EUA

Como de costume, ontem , além das eleições, houve uma carrada de referendos nos EUA, convocados ou por grupos de cidadãos, ou pelos parlamentos locais.

Alguns a notar:

Arkansas Issue 4, Marijuana Legalization Initiative – rejeitado (se tivesse sido aprovado, o Arkansas teria se tornado um dos raros sítios do mundo onde seria legal comprar cannabis mas não cerveja; há quem diga que talvez o Afeganistão nos anos 70…)

California Proposition 1, Right to Reproductive Freedom Amendment  – aprovada

Colorado Proposition 122, Decriminalization and Regulated Access Program for Certain Psychedelic Plants and Fungi Initiative

Louisiana Amendment 7, Remove Involuntary Servitude as Punishment for a Crime from Constitution Measure – recusada

Maryland Question 4, Marijuana Legalization Amendment – aprovada

Michigan Proposal 3, Right to Reproductive Freedom Initiative

Missouri Amendment 3, Marijuana Legalization Initiative

Nebraska Initiative 433, Minimum Wage Increase Initiative – aprovada

Nevada Question 2, Minimum Wage Amendment, para subir o salário mínimo

Nevada Question 3, Top-Five Ranked Choice Voting Initiative, alterando o sistema eleitoral

North Dakota Statutory Measure 2, Marijuana Legalization Initiative – rejeitada

Oregon Measure 112, Remove Slavery as Punishment for Crime from Constitution Amendment

South Dakota Initiated Measure 27, Marijuana Legalization Initiative

Tennessee Constitutional Amendment 3, Remove Slavery as Punishment for Crime from Constitution Amendment – aprovada

Washington, D.C., Initiative 82, Increase Minimum Wage for Tipped Employees Measure – aprovada

Vermont Proposal 2, Prohibit Slavery and Indentured Servitude Amendment – aprovada

Vermont Proposal 5, Right to Personal Reproductive Autonomy Amendment – aprovada

O aparente paradoxo da “alt-right”

Um aparente paradoxo da alt-right, ou “nova direita”, ou lá como se diz hoje em dia (quantas “novas direitas” já houve, aliás?) é que aquilo me parece uma mistura de liberais antidemocráticos e de democratas iliberais.

Alguns dos mais sofisticados, como o Peter Thiel e o Curtis Yarvin, pelo que li, ou deles ou sobre eles, parecem-me sobretudo liberais antidemocráticos (achando que o ideal seja uma monarquia, ou um estado-empresa, ou qualquer coisa sem sufrágio universal, mas com liberdades individuais), mas que acham que, dentro do politicamente possivel, o melhor ainda é um “César” com poderes quase absolutos mas eleito pelo povo, isto é, o que alguns considerariam uma democracia iliberal.

Mas isto talvez seja complicado (e é por isso que falo em “aparente”) pela palavra “liberal” não distinguir bem entre duas coisas – liberdade individual, por um lado, e equilíbrio de poderes, por outro (há meses que estou a tentar ganhar energia para escrever um post sobre isso).

[Já agora, ver esta discussão]

Libertários Left & Right E17

À conversa com o Carlos Novais, nomeadamente sobre se podemos confiar na informação que os media nos transmitem sobre a guerra na Ucrânia

“Monopólios” e “desinformação”

Nos últimos anos tem estado na moda a conversa “a internet está a ficar nas mãos de 2 ou 3 empresas/milionários, que permitem impunemente a divulgação de desinformação e de discurso de ódio”; mas esta conversa não me parece ter grande lógica, porque, se alguma coisa, é muito mais fácil combater a divulgação de “desinformação” ou de “discurso de ódio” (ou mesmo de informação verdadeira ou de “discurso de amor”, se for essa a ideia) numa internet monopolizada por 2 ou 3 mega-empresas de que numa de milhões de sites, blogs, foruns, etc independentes.  Qual é exatamente o ponto do discurso “a internet é dominada por 2 ou 3 quase-monopolistas, e isso é mau porque… eles afinal não a dominam suficientemente e deixam divulgar coisas que não deviam”?

Faz sentido criticar uma coisa (os monopólios) ou outra (a “desinformação” e o “discurso de ódio”), mas acho que não as duas ao mesmo tempo, como se estivessem ligadas.

Suspeito que isso resulta de uma polinização cruzada entre duas tradições ideológicas:

– Por um lado uma certa esquerda radical que passou os primeiros 20 anos da WWW entusiasmada, vendo a internet como uma espécie de paraíso anarco-comunista, quase sem autoridades ou hierarquias, em que toda a gente podia ter acesso a tudo sem estar limitada por direitos de propriedade (ler qualquer site, fazer o download de qualquer coisa…), em que todos podiam participar (editando artigos para a wikipedia, atualizando o Linux, fazendo extensões para o Firefox, etc.) numa produção simultaneamente individualista e comunitária (o género de mentalidade que o Pacheco Pereira criticava em artigos como este); para estes, a internet ficar dominada por capitalistas e empresas é uma tragédia – é o fim do seu “verdadeiro socialismo”

– Por outro, uma esquerda moderada que nem tem particularmente nada contra o grande capital, desde que este pague impostos para financiar o estado social e tenha suficientes mulheres e minorias étnicas em altos cargos (nesses aspetos, até se darão melhor com o grande capital do que com o pequeno – as grandes empresas tendem a pagar mais impostos; e tendem mais a ter altos cargos nas mãos de profissionais contratados, recrutados por critérios supostamente meritocráticos, em vez de na família proprietária, logo tendem quase automaticamente a ser mais “diversos”); no final dos anos 10 deste século, variantes desta esquerda tiveram várias derrotas eleitorais aparentemente inesperadas (Trump, Brexit, Bolsonaro, etc.) e, por qualquer razão, convenceram-se que o problema tinha sido as “noticias falsas” e o “discurso de ódio” das redes sociais (pelo menos no hemisfério Norte – o Brasil é mais complexo -, já está mais que provado que isso não faz qualquer sentido, e que a direita populista teve as suas maiores votações exatamente entre as pessoas que menos frequentam a internet; como escrevi em tempos “é mais ou menos sabido que Trump, o Brexit, o FPOe austríaco, etc., têm tido as suas maiores votações nas pequenas localidades, entre as pessoas mais velhas e com menos instrução (…); parecem-lhes mesmo o tipo de pessoa que passa o dia no Facebook, talvez com um intervalinho para jogar no Farmville ou para ver um filme no Netflix?“). Esses não terão grande sobjeções em abstrato à existência de redes sociais centralizadas e monopolizadas, apenas ao que lá circula

E como disse, que suspeito é que essa conversa que associa o suposto aumento do “discurso de ódio” e da “desinformação” com a domínio da internet por monopólios é o resultado de uma fusão entre essas duas narrativas à partida ideologicamente distintas.

É verdade que há um argumento que pode ser usado para tentar conciliar as duas coisas – os famosos “algoritmos”; ou seja, o problema dos multimilionários que controlam as redes sociais não será apenas passivo, de não fazerem nada contra a “desinformação” ou o “discurso de ódio”, mas será o de ativamente o promoverem, através de algoritmos que lhes darão mais visibilidade do que o que resultaria simplesmente das pessoas partilharem esse género de artigos (e aí, sim, já teríamos um problema especifico das redes sociais centralizadas que não existiria num mundo de blogs, foruns, etc, não coordenados). Mas essa conversa dos algoritmos parece muito duvidosa – não sei se alguém já demonstrou de forma clara que a “desinformação” ou o “discurso de ódio” tenham mais divulgação algoritmica do que “orgânica” (é muitas vezes dito que os algoritmos tendem a beneficiar os conteúdos que produzem mais engagement, mas então, quase por definição, não seriam também esses conteúdos a receber mais atenção sem algoritmos).

Libertários Left & Right E16

Mais uma conversa com o Carlos Novais:

 

Libertários Left & Right E15 – Agosto em Revista

Conversa com o Carlos Novais há uns tempos sobre bancos, energia, Ucrânia, etc.

A pobreza como um problema material ou de saúde mental?

Pegando no artigo de Henrique Raposo em que ele diz que a pobreza não é um problema principalmente de dinheiro mas de saúde mental (e deixando de lado as questões de “lugar da fala” que ele evoca no artigo): dizer que os pobres tomam péssimas decisões e não sabem exercer o seu livre-arbítrio ou dizer que os pobres têm problemas crónicos de saúde mental (que Raposo apresenta aqui como alternativas) não acaba por ser largamente uma diferença semântica? A mim parece-me no fundo a mesma coisa (duas formas de alegar que o cérebro dos pobres funciona de maneira diferente e que isso os leva a tomar más decisões).
O preconceito snobe contra os pobres tem duas grandes linhas clássicas. A primeira é mais antiga e mais europeia: os pobres têm péssimos genes e, portanto, a pobreza está no próprio sangue, o pobre é o ‘outro’, é quase de uma espécie diferente — este snobismo aristocrático desapareceu após 45, mas foi substituído por um snobismo mais moderno e mais americano: os pobres são pobres porque tomam péssimas decisões, não sabem exercer o seu livre arbítrio. Contra esta segunda linha, uma nova tese científica, que eu sigo, argumenta que a pobreza pode ser o efeito material de uma causa imaterial — problemas crónicos de saúde mental. Ou seja, o pobre pode não ter acesso ao seu livre arbítrio pois está soterrado no stresse crónico criado pela pobreza; o mérito para ele pode ser uma impossibilidade à partida. A irracionalidade das raspadinhas é um bom exemplo: as pessoas mais pobres são capazes de torrar salários e pensões em raspadinhas, porque o seu cérebro tem um problema de saúde mental, aquela não é uma escolha livre e consciente. Sim, controlar a ânsia pela raspadinha pode estar para lá do livre arbítrio de quem vive o stresse permanente gerado pela pobreza.

É verdade que nas linhas seguintes ele dá a entender um mecanismo ligeiramente distinto – que são os problemas causados pela pobreza que dão origem aos tais problemas mentais (que depois levam às tais más decisões que perpetuam a pobreza); mas então assim não se acaba por regressar à posição (que ele tão critica em Louçã) de que a causa raiz da pobreza é, afinal, mesmo os problemas materiais (sendo os problemas mentais um subproduto)?

[Diga-se que eu, pessoalmente, tenho muitas dúvidas face às teorias, da esquerda ou da direita, que alegam que as pessoas (sejam pobres, ricos ou de classe média) tomam de forma sistemática decisões irracionais (p.ex., nunca fui muito à bola com a “economia comportamental”, que recentemente parece ter implodido)]