Quotas para escolas em vez de para etnias (III)

Voltando à questão das quotas por escolas para a entrada na universidade, muito gente retorquiu que o que é preciso é “fazer um trabalho de base”, ou que “as quotas são a fita preta do sistema”, o que isso é “desistir e ir pelo caminho mais fácil”, blá, blá, blá….

Talvez; ou talvez não. Regressando ao que já disse na publicação inicial, depende muito do que se considere ser o motivo para se selecionar, para a entrada na universidade, os alunos com melhores notas no ensino secundário (ou nos exames correspondentes). É que há pelo menos duas razões possíveis (ainda que não necessariamente incompativeis) para isso, mas, a meu ver, com implicações bastante diferentes no que diz respeito a este assunto.

Uma é assumir que no ensino secundário se aprendem “bases”, que vão servir para se aprender melhor o que vai ser ensinado na universidade, logo fará sentido escolher os que têm melhores “bases”, porque são esses que em principio vão aprender melhor na universidade. E aí, realmente as quotas para as piores escolas serão tentar tapas o sol com uma peneira, já que esses alunos provavelmente irão ter grandes dificuldades na universidade (por lhes faltarem as tais “bases”).

Mas outra hipótese alternativa é achar que, na verdade, muito do que se aprende no ensino secundário pouco ou nada interessa verdadeiramente na universidade, ou talvez até seja contraproducente (p.ex., suspeito que seria mais fácil aos professores das faculdades de economia ensinarem a teoria da vantagem comparativa se os alunos não passassem o ensino secundário a aprender, em economia e história, modelos baseados na teoria da dependência e em sistemas “centro-periferia”, ou que o Tratado de Methuen é a causa do atraso económico português) – e realmente já ouvi falar de professores universitário´rios que se queixam que passam os primeiros meses a ter que “des-ensinar” o que os alunos aprenderem no secundário). Para essa hipótese, o verdadeiramente interessa é escolher alunos com características pessoais intrínsecas (provavelmente uma mistura de inteligência, esforço e curiosidade intelectual) que levam a um bom desempenho académico, e escolher os com melhores notas no secundário ou nos exames é apenas porque é a melhor maneira de medir essas combinação de fatores – ou seja, o curso de Matemática Aplicada à Economia e à Gestão até poderia selecionar os seus alunos com um exame de aramaico (ou um exame em aramaico sobre formigas parasitas) que iria acabar à mesma por selecionar os melhores alunos. E, se formos por aí, as quotas já não são uma “fita preta”, sem resolver o verdadeiro problema, ou uma espécie de adulteração dos resultados – será ao contrário: a existências de “boas” escolas é que é uma espécie de batota (parecida com tomar doping numa corrida), que distorce o sinal, porque aí as notas já não medem apenas aquilo que verdadeiramente se quer medir (o potencial de cada aluno), passando a estar contaminadas por um fator adicional (a qualidade da escola frequentada); e assim quotas por escola ou um mecanismo similar são uma forma de corrigir esse ruído e medir o que verdadeiramente se quer medir.

(Suponho que na realidade haja uma mistura dos dois efeitos)

E agora mais uma ideia que me ocorre (e com isto que vou escrever agora arrisco-me a ser expulso da esquerda sem sequer me fazer mais bem visto na direita): de vez em quando surgem noticias dizendo que os alunos das escolas públicas, tendo em média piores notas à entrada, depois têm melhores resultados na universidade que os oriundos das escolas privadas; uma possivel explicação para isso é que as escolas privadas sejam mesmo melhores (glup!) que as públicas, mas que o tal segundo efeito seja predominante (isto é, as características dos alunos interessem mais que as tais “bases”), o que leva a que, ceteris paribus, um aluno universitário vindo da escola pública seja mais inteligente/esforçado/interessado/etc. (já que precisou mais dessas qualidades para ter uma boa nota, exatamente por a escola não ser tão boa) que um vindo de uma privada, e por isso tenha naturalmente depois melhores resultados.

Tucker Carlson e JD Vance à beira do anarco-sindicalismo?

Quotas para escolas em vez de para etnias (II)

Mas o que eu suspeito é que esta medida (que beneficia toda a gente que vive em zonas “problemáticas”, seja qual for a sua raça) acaba por se tornar menos popular do que seria exatamente por ser apresentada como uma medida “contra o racismo”.

O Matthew Yglesias tem falado muito disso no blogue dele: que a esquerda norte-americana moderna (e pelo vistos também a europeia), perante propostas que são boas para TODOS os desfavorecidos, tem o hábito de defendê-las enfatizando que beneficiam os negros e as minorias (e que, portanto, quem se opõe a elas é objetvamente racista); mas que provavelmente essas propostas seriam mais populares se os seus defensores NÃO enfatizassem o ângulo racial e falassem só de pobres e ricos (exemplo).

Afinal, por norma há mais pessoas nas classes “baixa” e “média-baixa” do que pessoas de minorias étnicas.

Quotas para escolas em vez de para etnias (I)

Quando vi só o resumo (“Plano contra o racismo prevê quotas para acesso às universidades), pensei “péssima ideia – deveriam fazer quotas por escolas, não por raças”, mas afinal parece que vão fazer as quotas da maneira correta (por escolas): “Plano contra o racismo prevê quotas para acesso de alunos de escolas desfavorecidas às universidades“.

O que escrevi há uns anos sobre o assunto (Sugestão: quotas para escolas em vez de para etnias):

“De qualquer maneira, muita gente irá objetar a esta proposta com a conversa do “mérito”, mas basta ver a atenção com que se olha para os rankings escolares divulgados anualmente ou as guerras para conseguir ter os filhos colocados em certas escolas para se concluir o desempenho escolar não depende apenas do mérito individual (aliás, as pessoas que estão sempre a falar do “mérito” parecem-me ser também as que mais importância dão aos rankings escolares, numa contradição aparente), …

Ainda a respeito do “mérito”, algo que implicaria uma reflexão é qual o porquê de atribuir as vagas na universidade aos alunos com melhores notas; parece óbvio e intuitivo, mas exatamente por isso se calhar ninguém pensa seriamente qual é o motivo para tal. Eu consigo imaginar pelo menos 3 motivos, que têm implicações diferentes:

a) Escolher os melhores alunos porque estes têm mais bases e portanto vão ter melhor desempenho no curso e na vida profissional posterior. Se o motivo for esse, aí faz efetivamente sentido escolher os alunos com melhores notas.

b) Escolher os melhores alunos porque estes provavelmente são mais inteligentes e/ou mais esforçados e/ou mais interessados e portanto vão ter melhor desempenho no curso e na vida profissional posterior. Esta explicação difere da anterior porque não requer que o que os alunos aprenderam no secundário tenha alguma utilidade real na licenciatura/mestrado/profissão, é apenas uma maneira de selecionar os mais inteligentes/esforçados/interessados (para medir inteligência ou esforço nem será necessário que a matéria do secundário tenha alguma coisa a ver com a matéria da licenciatura, mas acho que para medir interesse já o será). Se o motivo for esse (avaliar mais a personalidade do candidato do que os seus conhecimentos) aí faz todo o sentido um sistema de dê prioridade aos alunos de meios em que é mais difícil ter bons resultados escolares: quase por definição, para um aluno de uma “má” escola conseguir um 18 num exame, precisa de mais esforço/inteligência/motivação do que um de uma “boa” escola (e se não for assim, quer dizer que os pais que andam a pagar fortunas para os filhos ficarem numa “boa escola” privada ou a meter cunhas para eles ficarem numa “boa escola” pública estão a ser vítimas de uma burla em larga escala).

c) Escolher os melhores alunos é uma forma de levar os alunos no secundário a se esforçarem (e os país a obrigá-los a esforçarem-se) e a aprenderem o que lhes é ensinado – mesmo que grande parte não vá para a universidade, o que aprenderam vai ser útil tanto a eles como à sociedade em geral (e atenção que com “útil” não me estou a referir apenas ao aspeto económico). Mas aí também não vem mal ao mundo se se introduzir um sistema qualquer de compensação a quem venha de meios desfavorecidos, já que o entrar ou não na universidade continua, naquilo que o individuo pode controlar, a depender do seu esforço…”

Marshall Sahlins (1930-2021)

Morreu Marshall Sahlins.

Um texto dele que eu de vez em quando partilhava aqui no Vento Sueste era Poor Man, Rich Man, Big-man, Chief: Political Types in Melanesia and Polynesia, comparando as diferentes formas de autoridade na sociedade tradicionais do Pacífico: os  polinésios tinham uma espécie de sociedade aristocrática”feudal”, com chefes hereditários e com poder formal, enquanto os melanésios eram uma espécie de anarco-capitalismo, em que os individuos mais ricos da comunidade distribuíam a riqueza pelos outros, recebendo em troca prestigio e poder.  Ao contrário do que acontecia nos tempos gloriosos da internet, já não encontro versões livres desse texto, mas de qualquer maneira deixo-vos o link.

A obra mais famosa dele é capaz de ter sido Stone Age Economics (e, sim, está tem uma versão livre!), onde ele argumentou que as sociedades pré-históricas de caçadores-recoletores foram as verdadeiras “sociedades da abundância”, no sentido em que as pessoas trabalhariam muitas poucas horas por dia para assegurar as suas necessidades.

Albert Hirschman e economistas com vidas atribuladas

Os 106 anos de Albert Hirschman (que se fosse vivo teria feito anos ontem), um dos principiais especialistas na área da economia do desenvolvimento, e que antes disso combateu ao lado do POUM na Guerra Civil de Espanha e ajudou pessoas a fugiram da França ocupada durante a II Guerra Mundial (via Pirenéus e Lisboa), fazem-me relembrar um assunto que já há algum tempo andava para escrever – ter tido uma vida atribulada e pouco convencional poderá influenciar a maneira como um economista (ou um cientista social em geral) desenvolve as suas ideias?

Em 2019, Branko Milanovic escrevia Non-exemplary lives, onde lamentava que quase todos os economistas atuais tivessem vidas ordenadas e banais (o que segundo ele era mau para pessoas da área das ciências sociais, já que ter uma ampla experiência de vida seria útil para perceber como os humanos agem); em contraste, Paul Krugman, em Incidents of My Career (escrito para aí há uns 20 anos), dizia que tinha “a self-serving theory: interesting ideas have very little to do with interesting life experiences. According to this theory a person who has grown up in eight countries and speaks five languages, who has taken a dogsled across Siberia and a raft down the Amazon, is no more likely to have a deep insight into social science than someone who grew up in a safe middle-class suburb reading science-fiction novels.” (e que esperava que essa toeria estivesse correta, porque era exatamente a vida dele).

O Covid-19 e as outras patologias

É um facto que praticamente toda a gente que morre com covid tem outras patologias; mas não é claro o que é que os que estão sempre a insistir nisso querem dizer:

a) que, para quem não tenha comorbidades, o perigo de morrer de covid é quase nulo e que só está em risco quem tenha também outras doencas?
ou

b) que para toda a gente o perigo de morrer de covid é quase nulo e mesmo os mortos com covid morreram por causa das outras doenças, não do covid?

É que são duas coisas completamente diferentes.

Guerra Venezuela vs. (o que sobrou das) FARC?

Algo que desconhecia completamente e até me surpreendeu (eles não eram suposto ser aliados?).

Venezuelan soldiers killed civilians, refugees who fled to Colombia say (Reuters)

Enfrentamientos de Apure de 2021 (Wikipédia em espanhol)

Bolsonaro a preparar-se para dar um golpe?

An Insecure Bolsonaro Prepares for His Own January 6, por Brian Winter, no Americas Quarterly.

E um dos primeiros atos do novo ministro da defesa foi divulgar uma carta celebrando o golpe de Estado de há 57 anos.

O outro aniversário – Kronstadt

Além dos 150 anos da Comuna de Paris, temos também os 100 anos de um acontecimento muito mais sombrio na história do movimento operário: a revolta de Kronstadt.

A revolta e sobretudo a repressão contra esta foi um momento chave na rotura entre o poder bochevique na Rússia com parte significativa da classe operária e com as tendências mais libertárias; e hoje em dia, dá-me a ideia que continua a ser um dos maiores focos de divisão na esquerda mais radical, com trotskistas e anarquistas a digladiarem-se à volta disso.

Nos últimos dias, entre os meios “comunistas de esquerda” (isto é, as correntes que se colocam na continuidade das fações do partido bolchevique e da Internacional Comunista que se opuseram a Lenine pela Esquerda por volta de 1920-21, e contra as quais este escreveu “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo“) tem também havido alguma discussão sobre o assunto; alguns artigos: