Cidadania e Desenvolvimento em 2030

Ano 2030 – na sequência da reportagem da CMTV revelando que muitas crianças de famílias imigrantes não frequentam a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, André Ventura, líder da coligação CHEGA/PSD/CDS, exige que essas famílias percam acesso a subsídios (ou que sejam mesmo deportadas nos casos mais graves) e que os candidatos à naturalização tenham que fazer um exame com os conteúdos dessa disciplina, a fim de averiguar o seu grau de integração nos valores da sociedade portuguesa.

Também o Observador e o Expresso publicam vários artigos de opinião sobre o caso, marcando a importância de um chão comum de valores para a manutenção de uma sociedade livre e democrática, e como isso está a ser ameaçado pelo multiculturalismo relativista e pela balcanização identitária (como escreve um dos articulistas do Expresso “são estas situações, que toda a gente conhece mas a imprensa dita de referência e os bem-pensantes do Bairro Alto fingem ignorar, que levam as pessoas comuns, que cumprem as regras mas veem-se abandonadas pelo sistema, a votarem no Ergue-te”).

Em contraponto, um investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em entrevista à RTP, apresenta a sua visão de que a filosofia estruturante da disciplina deriva de um paradigma iluminista-mecanicista, que apresenta como factos objetivos fenómenos e mundividências que só existem realmente numa perspectiva de intersubjetividades e de construções identitárias mediatizadas culturalmente, e que como tal é problemática, porque essa ideia de que é possível definir uma verdade objetiva independente das subjetividades e representações sociais é intrinsecamente ocidentalocentrica e (mesmo que alguns conteúdos até possam parecer “feministas”) masculinocentrica; assim, considera que seria boa ideia suspender a cadeira (ou pelo menos todos os seus efeitos na avaliação) e repensá-la numa perspectivas de tornar a escola numa multi-escolas, genuinamente aberta aos várias saberes e culturas. No dia seguinte, aparece um post no Blasfémias divulgando todas as ligações entre o investigador e o Bloco de Esquerda.

Entretanto, um grupo de jovens de uma comuna ao pé da Almirante Reis divulgam (tanto por panfletos como por um texto viral na net) um manifesto apelando ao fim da escola (“A forma-valor começa na forma-escola”); do outro lado do espectro político e social, uma feminista de direita ex-NeverTrumper anuncia no Twitter que vai participar num novo projeto, junto com os seus antigos colegas de blogues do principio do século.

[Eu tinha a ideia que já tinha publicado isto, mas afinal foi só no Facebook]

Desobediência civil e repressão estatal

Quase todas as leis baseiam-se, em última instância, na ameaça do uso da força (inclusivamente letal) pelo estado para as fazer cumprir – e um dos objetivos implícitos em atos de desobediência civil é levar o estado a recorrer à força e assim mostrar ao público a “violência inerente ao sistema”.

A opinião do liberal padrão face à discriminação privada

A opinião do liberal padrão face à discriminação privada – quando essa discriminação é “conservadora”, fazer uma defesa jurídica dessa discriminação (“há o direito a discriminar”), quando é “progressista” fazer uma critica moral ou utilitária dessa discriminação.

Essas posições não são contraditórias – pode-se ser a favor do direito legal a fazer uma dada discriminação, e ao mesmo tempo achar essa discriminação um disparate ou até moral/ repugnante, mas noto é a tendência para pôr a enfase num ponto nuns casos e no outro ponto noutros.

Ver também Liberalismo “thin” e “thick” e o “politicamente correto”.

História da “Teoria Monetária Moderna”

What Should Money Be Made Of? (History of Chartalism Pt. 1) e Fast Cars and Fiat Money (History of Chartalism Pt. 2), por e , na Strange Matters.

O segundo artigo tem de bónus uma digressão sobre as aventuras do futuro “patrocinador” da MMT como construtor e desenhador de automóveis.

We should probably stop for a moment to appreciate the route taken to get to this point. A hedge fund manager slash supercar industrialist – a character out of Iron Man comics – has a chance meeting with Donald Rumsfeld in a sauna room, who connects him with Art Laffer, from whom Mosler eventually found his way to an obscure 90s webring of dissident post-Keynesian scholars? This frankly unreal turn of events represents the genesis of what would become the next phase in chartalism’s evolution.

A divisão na esquerda latino-americana (de novo)

How the new Latin America left is seeking a greener future, por David Alire Garcia (Reuters), via James Bosworth:

Colombia’s presidential front-runner Gustavo Petro wants, if he wins later this month, to stop all new oil exploration and move his country to a greener future.

That lines him up with Chile’s recently-elected President Gabriel Boric, a Millennial who has also pledged to take a firm stance on tackling climate change.

As Latin America sees a resurgent ‘pink tide’ – with most of the region set to be headed by leftists by the end of the year – the greener hue of these newer leaders contrasts with the old guard “resource nationalists,” who have typically seen tight state control of energy and metals as the best path to economic progress and self-determination.

Ver o meu post do ano passado, A divisão na esquerda latino-americana

O renascimento do movimento sindical nos EUA

Why I love the new labor movement, por Noah Smith.

the new movement is significant, because it focuses on a sector that isn’t very unionized — retail. As I’ll explain in a later section, local services like retail have long been the industries most in need of unions.

 

“Legal Systems Very Different From Ours”

Já agora todo o livro de David Friedman (com o tal capitulo sobre os ciganos que referi no post anterior),  Legal Systems Very Different From Ours, parece bastante interessante (no site dele, aqui e aqui, pode-se ler versões de rascunho do livro).

As leis ciganas

Algures no episódio 14 do Libertários: Left & Right falamos sobre se haveria algum estudo sobre as instituições dos ciganos.

O David Friedman (que parece ter um interesse especial sobre esse tipo de assuntos) realmente escreveu alguma coisa sobre isso (mais exatamente, fez um resumo de um livro de vários autores).

Quando comecei a ler até pensei que isso deviam ser coisas inventadas ou então muito antigas, porque não tinha nada a ver com o que sei sobre como as coisas se passam na Coca Maravilhas ou no Vale da Arrancada, mas depois de ler tudo, vejo que o que ele escreve sobre os “Kalehe” (penso serem os ciganos da Peninsula Ibérica) corresponde mais ao menos ao que eu sei e/ou ouço dizer (pelo menos se, como me parece evidente, “household” se refira, não à família nuclear, mas a um conjunto avós, pais, filhos, netos, tios e primos vivendo em conjunto ou pelo menos ao lado uns dos outros).

Nota: alguns poderão contestar o próprio uso do termo “cigano”, mas nunca vi nenhum cigano de Portimão autoidentificar-se como “roma” ou lá o que for; quando dizem alguma coisa em que a identificação étnica seja relevante, dizem sempre “cigano”.

Libertários Left & Right: E14 Aborto Roe vs Wade

Libertários Left & Right E13

Mais uma conversa minha com o Carlos Novais: