Mas o que é afinal a “ideologia do género”?

É que dá-me a ideia que as pessoas que usam a expressão “ideologia do género” (por regra, em tom assustador, como um papão que vem aí) usam-na em referência a duas coisas que me parecem completamente diferentes e sem grande ligação lógica uma com a outra.

Por um lado, falam em “ideologia do género” para se referirem à ideia que os papéis sociais femininos e masculinos são uma construção social, p.ex. que no recreio as meninas jogam ao elástico e os meninos vão explorar as ruínas do outro lado da estrada porque são socializados nessa maneira e não por um desígnio genético-biológico.

Por outro, também falam em “ideologia do género” para se referirem aos assuntos relacionados com as pessoas trans; e usam “ideologia do género” com esse duplo significado, e como se essas duas ideias fossem idênticas.

[Sinceramente, nem sei se nem haverá uma potencial tensão entre esses dois sentidos; afinal, a ideia de alguém ter um corpo feminino mas sentir-se um homem parece-me talvez difícil de conciliar com a ideia de que as diferenças de personalidade entre os sexos sejam unicamente uma construção social]

Engenharia e fascismo?

No tal artigo que citei aqui sobre a influência de Carl Schmitt e Oswald Spengler sobre Peter Thiel, esta passagem («It seems to me that Thiel, with his “retro-futurist” desire for a reactionary political and cultural regime combined with an renewed emphasis on technological development, fits very well in this tradition, which differentiated between the “parasitic,” calculating capitalism of the merchant and banker with the “creative” capitalism of the inventor and industrial entrepreneur. Interestingly, Herf points out this perspective was not limited to traditional intellectuals, but was shared by many engineers, which we know is Thiel’s class background») fez-me lembrar do que escrevi aqui (na rubrica de ideia potencialmente delirante:

É que talvez o nacional-socialismo possa ser visto como o desejo de um mundo em que os “Senhores Interiores” já não precisem “Senhores Exteriores” – um mundo só de diretores técnicos e não de vendedores e comerciais (pode-se argumentar que isso não é especifico dos nazis e que até alguns posts meus podem ter essa leitura); afinal, se fosse levado ao extremo, o modelo nazi acabaria por ser um sistema em que os donos das empresas só de dedicariam a questões técnicas (como produzir), sendo as questões comerciais (que preços praticar, e a quem vender, etc.) essencialmente determinadas pelo Estado.

Peter Thiel, o promotor da nova extrema-direita?

Uma coisa que acho idiota é quando ainda se lê pessoas de esquerda ou até de centro continuarem a falar nos “irmãos Koch” como o papão. Além de já não serem os “irmãos Koch” mas apenas “o Koch” (o outro morreu), em muitos assuntos eles até eram mais moderados que o mainstream Republicano. Neste momento, o grande promotor (por enquanto, se calhar talvez recorrendo mais a influências do que a dinheiro) da direita mais radical parece ser mesmo Peter Thiel.

The Enigma of Peter Thiel, por John Ganz:

Peter Thiel is a fascist. There’s really no better word for what he is. For some reason, people have a lot of trouble grasping this or just coming out and saying it.

In his biography of Thiel, The Contrarian: Peter Thiel and Silicon Valley’s Pursuit of Power, Max Chafkin writes, “The Thiel ideology is complicated and, in parts, self-contradictory, and will take many of the pages that follow to explore, but it combines an obsession with technological progress with nationalist politics—a politics that at times has seemingly flirted with white supremacy.” Let’s see, we’ve go some futurism, nationalism, maybe a little bit of racism here and there…hmm, what does that all add up to? What a mystery this guy is!

E, também de Ganz, Thiel, Schmitt, and, Spengler – An Addendum (uma adenda ao texto anterior)

Divisão no movimento comunista internacional sobre a guerra na Ucrânia?

Parece-me estar a haver uma divisão no movimento comunista internacional (e aqui refiro-me aos partidos historicamente alinhados com a antiga URSS, isto é, não estou a falar de maoistas, trotskistas, conselhistas, etc.) a respeito da guerra na Ucrânia, com um lado concentrado em apresentar a NATO como o inimigo principal (como o Partido Comunista de Espanha ou o PCP)  ou mesmo apoiando abertamente a invasão russa (como o  Partido Comunista da Federação Russa) e outro considerando que é uma guerra inter-imperialista em que ambos os lados são igualmente maus, porque no fundo a causa da guerra está no próprio sistema capitalista (como o Partido Comunista Grego, o Partido Comunista dos Trabalhadores de Espanha ou o Partido Comunista da Venezuela).

Alguns artigos e documentos em que se dá para ver isso:

The stance of the communists towards the imperialist war in Ukraine, por Nikkos Mottas (ligado ao PC Grego)

JOINT STATEMENT of Communist and Workers’ Parties – No to the imperialist war in Ukraine!, texto promovido pelos Partidos Comunistas da Grécia, do México e de Turquia e pelo Partido Comunista dos Trabalhadores de Espanha

Declaración conjunta – Urge detener una guerra que nunca tendría que haber empezado, texto dos Partidos Comunistas espanhol, português, britânico e iraniano

On the stance of the RCWP on the imperialist war in Ukraine e On the unacceptable stance of the RCWP towards KKE, textos do Partido Comunista Grego sobre as posição do Partido Comunista Operário da Rússia

Muitos comentadores diriam “apoiam objetivamente todos a Rússia, apenas com um palavreado diferente”, mas é claro que esses vários partidos comunistas não pensam assim e acham que são mesmo posições diferentes (vejam-se as polémicas abertas entre alguns deles, e o facto que normalmente os partidos que subscrevem dados comunicados não subscrevem outros e vice-versa).

Uma nota final – parece-me que a Venezuela também é um polo de divisões: veja-se que o PC grego faz comunicados a denunciar a repressão contra o PC venezuelano, e ao que me parece o PCP não.

Daqui a uns tempos, no Algarve?

“Apropriação cultural”?

Uma coisa que nunca ou quase nunca vi os proponentes do conceito de “apropriação cultural” explicar é onde é que a “apropriação cultural” prejudica as pessoas pertencentes às culturas “apropriadas”.

Ainda sobre a Cidadania e Desenvolvimento

Cidadania e Desenvolvimento em 2030

Ano 2030 – na sequência da reportagem da CMTV revelando que muitas crianças de famílias imigrantes não frequentam a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, André Ventura, líder da coligação CHEGA/PSD/CDS, exige que essas famílias percam acesso a subsídios (ou que sejam mesmo deportadas nos casos mais graves) e que os candidatos à naturalização tenham que fazer um exame com os conteúdos dessa disciplina, a fim de averiguar o seu grau de integração nos valores da sociedade portuguesa.

Também o Observador e o Expresso publicam vários artigos de opinião sobre o caso, marcando a importância de um chão comum de valores para a manutenção de uma sociedade livre e democrática, e como isso está a ser ameaçado pelo multiculturalismo relativista e pela balcanização identitária (como escreve um dos articulistas do Expresso “são estas situações, que toda a gente conhece mas a imprensa dita de referência e os bem-pensantes do Bairro Alto fingem ignorar, que levam as pessoas comuns, que cumprem as regras mas veem-se abandonadas pelo sistema, a votarem no Ergue-te”).

Em contraponto, um investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, em entrevista à RTP, apresenta a sua visão de que a filosofia estruturante da disciplina deriva de um paradigma iluminista-mecanicista, que apresenta como factos objetivos fenómenos e mundividências que só existem realmente numa perspectiva de intersubjetividades e de construções identitárias mediatizadas culturalmente, e que como tal é problemática, porque essa ideia de que é possível definir uma verdade objetiva independente das subjetividades e representações sociais é intrinsecamente ocidentalocentrica e (mesmo que alguns conteúdos até possam parecer “feministas”) masculinocentrica; assim, considera que seria boa ideia suspender a cadeira (ou pelo menos todos os seus efeitos na avaliação) e repensá-la numa perspectivas de tornar a escola numa multi-escolas, genuinamente aberta aos várias saberes e culturas. No dia seguinte, aparece um post no Blasfémias divulgando todas as ligações entre o investigador e o Bloco de Esquerda.

Entretanto, um grupo de jovens de uma comuna ao pé da Almirante Reis divulgam (tanto por panfletos como por um texto viral na net) um manifesto apelando ao fim da escola (“A forma-valor começa na forma-escola”); do outro lado do espectro político e social, uma feminista de direita ex-NeverTrumper anuncia no Twitter que vai participar num novo projeto, junto com os seus antigos colegas de blogues do principio do século.

[Eu tinha a ideia que já tinha publicado isto, mas afinal foi só no Facebook]

Desobediência civil e repressão estatal

Quase todas as leis baseiam-se, em última instância, na ameaça do uso da força (inclusivamente letal) pelo estado para as fazer cumprir – e um dos objetivos implícitos em atos de desobediência civil é levar o estado a recorrer à força e assim mostrar ao público a “violência inerente ao sistema”.

A opinião do liberal padrão face à discriminação privada

A opinião do liberal padrão face à discriminação privada – quando essa discriminação é “conservadora”, fazer uma defesa jurídica dessa discriminação (“há o direito a discriminar”), quando é “progressista” fazer uma critica moral ou utilitária dessa discriminação.

Essas posições não são contraditórias – pode-se ser a favor do direito legal a fazer uma dada discriminação, e ao mesmo tempo achar essa discriminação um disparate ou até moral/ repugnante, mas noto é a tendência para pôr a enfase num ponto nuns casos e no outro ponto noutros.

Ver também Liberalismo “thin” e “thick” e o “politicamente correto”.