“O Triunfo dos Porcos” da CIA é mais “filo-trotskista” que o original de Orwell

Refiro-me ao filme de bonecos animados dos anos 50 que hoje em dia se sabe ter sido patrocinado pela CIA. Paradoxalmente, parece-me acabar por ter um tom mais “filo-trotskista” que a história original do socialista Orwell.

Para começar, digo que vi o filme deveria ser um pré-adolescente e nunca li o livro todo de seguida (li pedaços umas três vezes – acho que, em conjunto, acabei por o ler todo, mas não tenho certeza absoluta) – e antes de escrever este post, fiz uma revisão por alto do filme e do livro, mas é sempre possível que me tenha escapado alguma coisa.

Há sobretudo dois pontos em que o filme parece-me muito mais “o verdadeiro animalismo é uma maravilha, e tudo o que correu mal foi culpa de Napoleão que atraiçoou a revolução e os principio de Major”:

No livro já começa a haver sinais de degeneração suína logo desde o principio – é dito explicitamente que os porcos não trabalhavam mas orientavam os outros animais, começam a ter uma sala só para eles e leite começa a ser utilizado para fazer uma mistura também destinada aos porcos.

No livro, também é decidido tirar os cachorrinhos aos pais e entregá-los à guarda de Napoleão, o que se vem a revelar decisivo para a narrativa

No filme, não se vê quase nada disso – efetivamente, não se vê os porcos a trabalharem (com uma exceção – ver mais à frente), mas a única coisa que é dita explicitamente é que os porcos conseguiam arranjar solução para qualquer problema que aparecia (o que é compatível tanto com serem administradores formais, como com serem simplesmente animais com os mesmo estatuto outros mas mais criativos na altura de solucionar problemas); quem veja o filme antes ou sem ler o livro provavelmente nem reparará que quase não se vê os porcos trabalhando; os porcos também não parecem ter qualquer privilégio económico: embora Napoleão e Squealer bebam o leite ordenhado das vacas, está subentendido que o fazem contra as regras da quinta, já que se vê eles a olharem cuidadosamente em volta antes de beberem o leite – e ainda por cima antes eles estiveram carregando os baldes de leite, pelo que até temos porcos fazendo trabalho físico (como digo, quem veja só o filme, simplesmente pensará que, tal como se vê as aves e o cavalo a apanhar trigo e duas ovelhas a reconhé-lo, também haverá porcos fazendo outros trabalhos algures na quinta).

Os cachorinhos também parecem ter caidos nos cascos de Napoleão de forma totalmente subrepticia – quando os animais visitam a casa de Mr. Jones, Napoleão encontra os canitos  e leva-os às escondidas para um armazem (provavelmente os outros animais nem sequer sabem que os cães existem).

Assim, no filme, o golpe de estado quinta dos 34 minutos e 20 segundos surge como algo completamente exógeno e como que caído do céu – a assembleia dos animais está em reunião, com Bola de Neve a falar, e de repente uma carrada de cães educados por Napoleão invade a assembleia, expulsa (e provavelmente mata) Bola de Neve, e Napoleão anuncia que a assembleia já não se vai mais reunir e que agora ele é que manda; no fundo não é muito diferente do que se fossem invadidos e conquistados por uma quinta vizinha e não por um dos próprios.

Ou seja, no filme os animais vivem no “verdadeiro animalismo” desde a revolução de 13:30 até ao golpe de 34:20, e de súbito é instalada a ditadura de Napoleão, como um processo completamente externo e sem raízes já na sociedade logo a seguir à revolução. O Velho Major e Bola de Neve são os heróis e Napoleão o mauzão que estragou tudo (leia-se “Lenine e Trotsky eram os bons, e Estaline estragou tudo”).*

A outra grande diferença é o fim – enquanto o livro tem um fim pessimista, com os humanos e os porcos a se tornarem indistinguíveis e os outros animais a olharem para eles, o filme tem um happy end, aparentemente com o triunfo da “revolução política” (isto é, os outros animais a se revoltarem contra os porcos) e possivelmente com o regresso ao “verdadeiro animalismo” do principio do filme (a menos que desse origem a uma sequela “O Trunfo dos Equídeos”…). Ou seja, no livro a conclusão lógica seria que a revolução dos animais foi uma perda de tempo (e, aliás, há passagens em que o burro dá a entender isso logo, mesmo logo no principio); já no filme, a revolução acaba por ser vitoriosa, mesmo que com alguns contratempos pelo meio. Pondo de outra maneira – é muito mais provável que um espetador do filme venha a simpatizar com revoluções do que um leitor do livro (e nesse aspeto se calhar o filme até é mais fiel à intenção original do autor de que o livro).

Quando comecei a escrever este post, estava pensando algo como “a adaptação não correu muito bem aos objetivos da CIA”, mas depois ocorreu-me que talvez não tenha corrido assim tão mau – afinal, o apoio da CIA à produção do filme foi no contexto da sua relação com o Congress for Cultural Freedom, uma organização de fachada que tinha como principais destinatários os intelectuais de esquerda não comunistas (um aspeto curioso é que o agente da CIA responsável por supervisionar o CCF veio, décadas mais tarde, a ser um dos apresentadores de um programa da CNN, com o papel de representar a “esquerda”, em contraponto com Pat Buchanan representando a direita); assim, é fácil imaginar que o objetivo de divulgar o livro e o filme era sobretudo atacar a URSS e os PCs entre o público com simpatias de esquerda (mais suscetível a ser arregimentando pelos comunistas), e se calhar para isso um filme feito em tom de “a URSS não é o verdadeiro socialismo” até pode ter sido mais eficaz.

* E aqui alguém que seja ou tenha sido trotskista dirá que no trotskismo não há nada de exógeno ou de “a culpa foi de Estaline” na análise da degeneração da Revolução Russa; a teoria é que (até como marxistas que se prezem) foi o resultado das contradições internas derivadas do atraso económico e do isolamento internacional da União Soviética e que a vitória de Estaline foi mais o resultado do que a causa desse processo. Sim, mas eu estou pensado menos na ideologia formal conhecida por “trotskismo” e mais naquela espécie de radicalismo de esquerda em versão popularizada, que assenta em achar que a Revolução de Outubro foi boa e que o Estaline foi mau, mas não necessariamente com grandes sistematizações teóricas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s