O porquê da associação entre o populismo de direita e o “covid-negacionismo”

Eu ainda estou na dúvida se a associação (que parece global ou quase) entre o populismo de direita e o “o covid é só uma gripe” foi um puro acidente (o Trump ter começado com isso e a partir dai todos os seus fãs mundiais terem ido atrás) ou tem mesmo raízes profundas.

A favor da hipótese “acidente”, temos que inicialmente os intelectuais da alt-right eram dos mais preocupados com o covid, e à partida seriam os mais entusiastas de fechar fronteiras e dar mais poderes à policia;  e em Portugal, o Chega era quem queria mudar a constituição para permitir o internamento compulsivo e depois quem queria planos de confinamento para os ciganos.

Nesse cenário, o “negacionismo” inicialmente viria mais da velha ala “liberal econômica” dos Republicanos, e tendo sido Trump eleito pelos Republicanos, acabou por promover essa linha (e assim, o “negacionismo” acabou associado ao “trumpismo”, para o bem e para o mal).

A favor da hipótese “raizes profundas”, temos que os sectores mais afetados pelas medidas anti-covid (pequenos negócios cuja atividade implique lidar com pessoas ou com o mundo fisicod) são frequentemente um bastião do populismo de direita e isso veio a associar as duas posições, enquanto a direita clássica liberal-conservadora e a “esquerda moderna” têm empregos de elite em que facilmente se fecharam em casa a teletrabalhar e a acabar o mês com a conta bancária muito maior porque não gastaram dinheiro em gasolina, logo podem dar-se ao luxo de ser covid-falcões.

Além disso, o discurso “estão com medo de uma gripezinha?” joga bem com a pose “macho man” que a direita populista gosta de cultivar; e, de qualquer maneira, o populismo joga bem com desconfiar do establishment médico (é verdade que essa desconfiança poderia dar tanto para o “negacionismo” como para “o covid é muito mais perigoso do que dizem” – mas a partir de abril de 2020 também não havia muito espaço para ser mais covidista que o establishment; antes havia, com a questão das máscaras).

De qualquer maneira, ainda há resquicios dessa ambivalência – a crise na candidatura do Chega Portimão parece-me ter sido em parte por isso, com o 1º candidato à câmara a ser afastado, entre outras razões, por ter tido um conflito com a policia nalgo relacionado com as medidas anti-covid.

One thought on “O porquê da associação entre o populismo de direita e o “covid-negacionismo”

  1. “de qualquer maneira, o populismo joga bem com desconfiar do establishment médico (é verdade que essa desconfiança poderia dar tanto para o “negacionismo” como para “o covid é muito mais perigoso do que dizem” – mas a partir de abril de 2020 também não havia muito espaço para ser mais covidista que o establishment; antes havia, com a questão das máscaras).”

    Acho que esta ganha o jackpot.
    Creio que não é só o establishment médico, mas todo o establishment intelectual: jornalistas, políticos, instituições, laboratórios, etc.
    E sim, quando a desconfiança face a esse establishment podia dar para os dois lados, alguns entraram no “COVID é muito mais perigoso do que dizem” que até joga bem com a propensão para o “medo” mais presente na direita. Mas quando isso deixou de ser possível a direita populista confluiu no “negacionismo”.

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