O socialismo e as suas facções epónimas

Aviso – neste post vou entrar por eventuais divagações que possivelmente não interessarão a ninguém, e talvez bata um recorde de referências a movimentos políticos obscuros.

Na sua resposta à resposta de Louçã, Carlos Guimarães Pinto escreve que “O pressuposto errado de Louçã é o de que o liberalismo é uma ideologia fundada no culto de personalidade(s). Compreende-se que pense assim já que Louçã vem de um campo ideológico onde as facções são fundadas em cultos de personalidade (marxistas, leninistas, stalinistas, maoistas, ou, como é o caso de Louçã, trotskystas). Partindo desse pressuposto, que se aplica apenas à sua área ideológica, Louçã julga que ao atingir a reputação de alguns pensadores com manipulações e distorções consegue atingir a credibilidade de todo um campo ideológico.

Esse suposto “culto da personalidade” no socialismo é largamente exagerado, porque há uma coisa que por vezes se esquece – esses nomes atribuídos a correntes socialistas (como “estalinismo” ou “trotskismo”) normalmente não são reivindicados pelos próprios (pelo menos a principio), mas pelos seus oponentes; duvido, p.ex., que alguém alguma vez se tenha dito “estalinista” e mesmo os trotskistas só muito a custo aceitaram a designação, tendo passado décadas usando nomes como “bolcheviques-leninistas” ou “marxistas-revolucionários” (ok, realmente continuavam a pegar em nomes de pessoas, ainda que não da pessoa que realmente mais os influenciava); e quase que aposto que o Louçã não se auto-qualifica como “mandelista” (que é o que os trotskistas de outras correntes lhe chamam); uma exceção talvez seja a facção pro-guerra termonuclear global, pró-frente unida entre operários e golfinhos, pró-revolução intergaláctica, anti-socialismo num só planeta do trotskismo, que penso desde cedo ter adotado o nome de “posadista“.

Pelo menos nas primeira fases, muitas vezes quem insiste na terminologia “[Nome de alguém]ismo” costumam ser os seus opositores, largamente para dar a ideia “aquilo é um fulano que se zangou connosco por puras razões pessoais, e é só ele e mais uns comparsas”.  Mas com o tempo o nome acaba por pegar, até porque frequentemente é o único nome verdadeiramente disponível para designar essa fação – sobretudo dentro do marxismo (a começar pelo próprio marxismo), as construções teóricas costumam ser tão rebuscadas que é quase impossível a partir dela simplesmente arranjar uma ou duas palavras simples que representem a ideologia, portanto um nome derivado do autor mais conhecido acaba por pegar (algumas exceções: “comunismo de conselhos“, “operarísmo“, “situacionismo“, “autonomia“, “comunização“, “apelismo” – curiosamente, todas elas num marxismo a arranhar o anarquismo…).

Já o liberalismo ou o conservadorismo são menos dados a darem origem a “[Nome de alguém]ismos”, provavelmente pelo simples facto que são logo menos dados a se dividirem a facções rivais (e quando tal acontece, é por causa de pontos relativamente simples – anarco-capitalists vs. minarquistas, consequencialistas vs. deontológicos, etc.), logo há menos necessidade de ter nomes para distinguir essas facções.

Um exemplo extremo pode ser os chamados “bordiguistas” (que se autonomeiam “esquerda comunista”, embora esse termo seja também usado por outros grupos): Bordiga foi o primeiro líder do então chamado Partido Comunista de Itália, e cabeça de fila da ala mais radical que recusava o parlamentarismo e qualquer colaboração com o Partido Socialista; foi substituído pela Internacional Comunista pelo “moderado” Gramsci na direção do PCd’I (num episódio muito similar à substituição de Caetano de Sousa por Carlos Rates na direção do PCP em 1923). Após ter estado algum tempo preso sob o regime de Mussolini, suspendeu a atividade política e dedicou-se à profissão de engenheiro civil (o facto dele, ao contrário de outros “patronos” de facções socialistas, ter abandonado a política em vez de morrer logo vai ser relevante mais para a frente); mas alguns dos seus apoiantes exilaram-se em França, onde desenvolveram a corrente que provavelmente toda a gente menos eles chamava de “bordiguismo”. Após a II Guerra Mundial, Bordiga regressou à política e… repudiou grande parte do que até então se chamava “bordiguismo”, isto é, todas as inovações que os supostos “bordiguistas” tinham introduzido na sua ausência (e recreou um movimento “bordiguista” à volta só das ideias que ele tinha defendido nos anos 20); porque é que falo disto? Porque é revelador que uma ideologia ser coloquialmente chamada de “[fulan]ismo” não significa que seja verdadeiramente uma ideologia construída à volta do pensamento de Fulano; por vezes pode-se afastar tanto que, quando Fulano acorda, nem a reconhece.

[A respeito disto, ver este post de um antigo demónio fenício – que durante muitos anos possuiu um intelectual português de algum destaque – em que, acerca de trotskistas que não se dizem “trotskistas”, refere que “Os maoistas também não diziam que eram maoistas e os estalinistas idem.”]

Ainda um ponto relacionado com isto; como os leitores sabem, eu fui trotskista muitos anos, e continuo a ser uma espécie de compagnon de route (ou “idiota útil”?); e embora já não o seja, há um tipo de argumento contra o trotskismo que me parece muito fraquinho, que é os do tipo “Trotsky foi responsável pela repressão e massacre de Kronstadt” (poderiam referir outros exemplos – as campanhas contra o exército insurrecional de Nestor Makhno, a defesa da direção individual na indústria contra o controlo operário, o fim da eleição dos oficiais pelos soldados e a reintegração dos oficiais czaristas, etc.; todos coisas em que Trotsky teve um, se não O, papel decisivo). Porque é que esse argumento é fraquinho? Porque me parece assentar numa grande confusão sobre o que é o “trotskismo”. Não, não é uma ideologia que diz que o mal da revolução russa foi ter sido Estaline e não Trotsky a suceder a Lenine (o que justificaria essas discussões sobre se Trotsky era “mauzão” ou “bonzinho”); aliás, a ser assim, nem se percebe bem como o trotskismo poderia ter existido a partir da morte de Trotsky, já que se o ponto central fosse ser Trotsky a governar a URSS, isso tornou-se irrealizável a partir daí (atenção que Kronstadt, Makhno, etc., são efetivamente relevantes para uma crítica ao trotskismo, mas não pelas razões que são normalmente apresentadas – daqui a pouco já explico). Mas então, o que significa “trotskismo”? Significa este conjunto de posições:

1) No mundo atual (isto é, desde pelo menos 1905), é impossível uma revolução democrática-burguesa ou anti-imperialista tradicional, como as dos séculos XVII-XIX; mesmo nos países atrasados, uma revolução dessas implicará a participação da classe operária, mas esta não se contentará em fazer uma pura “revolução burguesa” e avançará para uma revolução proletária em direção ao socialismo

2) A vitória de uma revolução proletária como a acima referida levará (sobretudo num país atrasado) não a um regime estável, mas a uma situação em que as contradições entre o grau de desenvolvimento económico, as formas de propriedade e o sistema político (e mais a evolução das relações de força à escala internacional) levarão a uma instabilidade constante das instituições sociais e políticas, que ficarão permantemente em transformação, impulsionadas pela evolução das “forças produtivas” e da luta de classes a nível mundial

3) De novo, sobretudo num país atrasado, a construção do socialismo implica o alargamento internacional da revolução, sobretudo a países mais desenvolvidos

4) Em virtude do atraso inicial e da revolução de outubro não ter sido seguida por outros nos países mais desenvolvidos da Europa (nomeadamente na Alemanha), a URSS acabou por se tornar um “estado operário degenerado”; “operário” porque os meios de produção estavam coletivizados e não havia uma classe de capitalistas, “degenerado” porque o poder político e a gestão da economia nacionalizada não era exercida pela classe operária, mas por uma elite de “burocratas”, isto é, de dirigentes profissionalizados do aparelho de estado, do partido comunista e das empresas

5) O tal “estado operário degenerado” era intrinsecamente instável e acabaria por desembocar, ou numa revolução política que estabelecesse a democracia operária, ou numa contra-revolução social que restaurasse o capitalismo

6) É preciso um partido “vanguarda” centralizado e disciplinado para levar a classe operária a fazer as tais revoluções acima referidas (até aqui, isto é simplesmente “leninismo”), mas com pluralismo de facções e tendências (um trotskista dirá que esta parte das tendências é também “leninismo” e que a supressão de facções é “estalinismo”, mas a maioria dos “leninistas” discordará)

Uma coisa que se vê logo disto é que (tal como escrevi atrás) que isto é tão hiper-elaborado e rebuscado que seria difícil arranjar outro nome para isto que não “trotskismo”; se fosse só os pontos 1 a 3, talvez se pudesse chamar “permanentismo” ou algo parecido (mas mesmo isso soa-me mal), mas já seria mais complicado arranjar uma designação que incluísse também os pontos 4, 5 e 6.

Outra coisa é que “trotskismo” não implica uma defesa geral de tudo o que Trotsky defendeu, mas apenas destes pontos específicos; duvido, p.ex., que algum trotskista atual seja (como Trotsky era) a favor do padrão-ouro; ou veja-se como o “Secretariado Unificado da IV Internacional” (os tais “mandelistas”) parece rejeitar explicitamente “Terrorismo e Comunismo”. Isto, claro, para não falar de todas aquelas posições em que mais tarde o próprio Trotsky deu uma volta de 180º (como a sua oposição ao centralismo leninista ou a sua defesa da militarização dos sindicatos) ou mesmo de 90º (as suas posições dos anos 30 sobre pluripartidarismo ou a liberdade de imprensa são difíceis de conciliar com a sua prática em 1917-22, por mais que ele tenha alegado que não e que tinha sido tudo culpa da guerra civil). Em teoria, até poderíamos imaginar alguém que detestasse o individuo Trotsky mas concordasse com estes pontos fundamentais, e que fosse por isso um “trotskista” (na prática duvido, porque a psicologia humana não funciona assim).

[Para tornar a coisa ainda mais confusa, há correntes que discordam de algum destes pontos que apresentei e são há mesmo consideradas “trotskistas”; o caso mais visível é o da corrente organizada à volta do SWP britânico, que considera que a URSS e os regimes similares a esta não eram “operários degenerados” mas sim “capitalistas de estado”, no que me parece uma rutura com um dos dogmas centrais do trotskismo; o mesmo para a Alliance for Workers Liberty, que diz que esses regimes eram “coletivistas burocráticos”; e mesmo correntes aparentemente mais ortodoxas como a Liga Internacional dos Trabalhadores ou a Tendência Marxista Internacional acham que é possivel uma revolução feita pela classe média – “pequena-burguesia” – sem a mobilização da classe operária (p.ex., via um golpe de estado dirigido por oficiais das forças armadas) que conduza diretamente ao tal “estado operário degenerado”, o que se calhar põe ainda mais em causa toda a construção teórica trotskista, a começar no ponto 1]*

Mas o ponto mais importante disso é que os trotskistas não acham que a causa da URSS não ter sido “o verdadeiro socialismo” seja por ter sido Estaline e não Trotsky a substituir Lenine; se alguma coisa o raciocínio é ao contrário – que Estaline derrotou Trotsky porque o desenvolvimento das forças produtivas e a situação internacional levavam a que a URSS não pudesse ser já “o verdadeiro socialismo” (ver também a minha nota final a este post). Imagino que nenhum trotskista diga que, se por um acaso do destino (p.ex., um acidente de comboio em 1927 que tivesse morto Estaline e os seus colaboradores próximos) Trotsky tivesse prevalecido mas na mesmo conjuntura interna e internacional, teria acabado (independentemente da sua vontade) por fazer uma política parecida com a de Estaline – mas acaba por ser largamente a conclusão lógica da teoria trotskista sobre o “estalinismo”. Logo a questão sobre se Trotsky era “boa” ou “má pessoa” é largamente irrelevante para aqui.

Agora Kromstadt, Makhno, o fim do controle operário, etc. etc. põem realmente em causa o trotskismo, mas não por demonstrarem que Trotsky seria também “mauzão”, mas por outro motivo – tudo isso aconteceu logo nos primeiros anos após a Revolução de Outubro; era, se o regime, logo nos primeiros tempos, começou a atacar a classe operária, isso põe em causa a narrativa trotskista de um “estado operário” que foi degenerando devido à força das circunstâncias objetivas, indiciando que o que estava mal na URSS afinal estaria mal desde o principio ou quase e que portanto a causa seria outra que não apenas os tais atraso económico ou isolamento internacional (críticos social-democratas ou de direita do bolchevismo dirão que o mal está logo na ideologia coletivista ou pelo menos na via revolucionária para a seguir; já os críticos pela esquerda do bolchevismo – como anarquistas ou comunistas de conselhos – dirão que o mal está no vanguardismo leninista do partido centralizado e disciplinado a substituir a ação espontânea do proletariado). Mas a participação pessoa de Trotsky nisso é largamente irrelevante para a validade ou não do trotskismo – mesmo que Trotsky tivesse estado a ler romances franceses nas reuniões em que isso foi decidido e não tivesse tido participação efetiva, isso poria à mesma em causa o trotskismo, pelos motivos que acabei de referir.

Uma nota final – o tal ponto 1 (a de que atualmente a burguesia já nem sequer revoluções burguesas consegue fazer e essa tarefa tem que ser assumida pelo proletariado) acaba por me fazer lembrar o artigo inicial de Louçã.

* eu avisei logo no principio do post

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