Vai ficar tudo bem?

A respeito de, quando acabar a pandemia e as restrições associadas, a economia e o emprego vão voltar ao normal, eu diria que uma visão neo-clássica implicaria que sim, e que uma “austríaca” (ou então uma marxista-autonomista-operaísta) que não.

O meu raciocínio – numa visão neoclássica, com pessoas plenamente informadas e em que a economia tende quase automaticamente para o equilíbrio, mesmo que muitos negócios vão à falência e muita gente perca o emprego, quando as coisas voltarem ao normal, os negócios que eram rentáveis antes voltarão a ser rentáveis e voltarão a abrir, mesmo que com novos donos e/ou eventualmente do outro lado da rua; algumas pessoas poderão ser arruinadas e ver o produto do trabalho de uma vida desaparecer, mas o conjunto da economia pouco será afetado (por vezes fala-se em que se está a “consumir capital”, mas numa economia moderna – em que não é fácil comer as galinhas poedeiras, as vacas leiteiras ou o trigo que era para ficar de semente para a próxima colheita – penso que a destruição de capital é um fenómeno relativamente lento, consistindo fundamentalmente em não se reparar os equipamentos que vão deixando de funcionar).

Mas já numa visão “austríaca” em que, pelo que acho que percebo, valoriza mais o papel do empresário como descobridor de oportunidades de negócio, será de esperar que a economia leve muito mais tempo a recuperar, já que depois de muitas empresas falirem, será um processo lento para voltarem a surgir novas para ocupar o seu legar.

E para uma visão marxista mais influenciada pela “autonomia operária” (pelo menos nalgumas variantes) o raciocinio é similar, quase bastando substituir “empresários” para “trabalhadores” – numa vaga de falências e despedimentos, muito do conhecimento tácito dos trabalhadores (p.ex., o empregado do café que já sabe o que cada cliente quer e que tipo de conversa fazer com cada um) perde-se e não reaparece automaticamente ao abrirem novas empresas com novos trabalhadores.

Já agora, e numa perseptiva keynesiana, como será? À partida, parece-me uma questão largamente paralela ao keynesianismo, já que este se preocupa com a procura e o que estamos aqui a falar é de quais os efeitos sobre a capacidade produtiva da economia (ou seja, sobre a oferta); mas ultimamente os keynesianos (e talvez sobretudo os neokeynesianos, pos-keynesianos, etc.) têm andado à volta de teorias, como a “histerese”, que implicarão que a economia demorará algum tempo a voltar ao normal pré-crise; além disso, a sexplicações keynesianas para a rigidez dos preços -como concorrência imperfeita, limites à informação, decisões tomadas por regras ad hoc em fez de maximização pura e dura, etc. – provavelmente também implicarão que o reequilibrio da economia seja um processo demorado em vez de quase automático.

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