Redes sociais, esquerda e direita

Há uma teoria de que a internet e as redes sociais (e antes os blogues) estariam a dar força à direita, e seria o responsável pelas recentes vitórias desta (Trump, Brexit, Bolsonaro)  – e essa teoria vem tanto da direita (e aí a variante é qualquer coisa envolvendo o “legacy media” que estaria ao lado da esquerda e que estaria a ser curto-circuitado pelas redes sociais) como da esquerda (e aí o alvo são inevitavelmente as fake news).

Mas isso fará algum sentido? A parte das fake news penso que não tem grande ponta por onde se lhe pegar (pelo menos na variante que terão eleito o Trump); e de qualquer maneira está confirmado que o eleitorado de Trump foram as pesssoas que menos passam na internet. Vamos puxar um bocadinho pela cabeça – é mais ou menos sabido que Trump, o Brexit, o FPOe austríaco, etc., têm tido as suas maiores votações nas pequenas localidades, entre as pessoas mais velhas e com menos instrução (a parte das localidades é sabido – basta ver os resultados; a parte do “pessoas mais velhas e com menos instrução” pode não ser assim tão linear, mas é o que as sondagens indicam); parecem-lhes mesmo o tipo de pessoa que passa o dia no Facebook, talvez com um intervalinho para jogar no Farmville ou para ver um filme no Netflix? Eu imagino-os mais facilmente no café do bairro a queixarem-se que “os miúdos de hoje estão sempre agarrados à máquina e já não fazem desporto nem convivem”.

[Atenção que o Bolsonaro parece ser um caso à parte, com os melhores resultados entre a população mais instruída, e com o Nordeste rural – em contracorrente ao Deep South dos EUA e ao norte de Inglaterra no Brexit – a votar PT].


Já agora, eu até acho que seria de estudar a hipótese oposta – que o recente aumento de popularidade do “socialismo” (ou pelo menos da palavra “socialismo”, independentemente do que queiram significar com ela) até deriva, ela sim, da cultura da internet; nomeadamente, a aparente gratuitidade da maior parte do que existe na rede, o seu carácter pouco hierarquizado (em que qualquer um pode expor as suas teorias num fórum ou num blogue, escrever ou melhorar um artigo na wikipedia, ou aperfeiçoar um programa de software de código aberto) e a produção massiva de conteúdos por trabalho não-pago talvez estejam a tornar (se calhar mesmo subliminarmente) algumas pessoas mais recetivas a ideias como determinados bens e serviços serem gratuitos (se não pago para pesquisar no google, porquê pagar pela saúde ou educação?), a menorizar o efeito distorcedor dos altos impostos (se as pessoas passam meses a escrever artigos para a wikipedia ou extensões para o Firefox à borla, vão deixar de trabalhar só por causa de 70% de impostos sobre o rendimento que ultrapasse os 10 milhões de dólares?), a simpatizar com o ativismo político permanente (ei, não é isso que fazemos todos os dias nos blogues e nas redes sociais?) em vez de votar só de quatro em quatro anos e fora isso tratar da sua vida (ou seja, mais Rousseau e menos Locke), ou mesmo, nos mais radicais, a desvalorizar a empresa capitalista hierarquizada tradicional a favor de formas comunitárias e relativamente igualitárias de organização do trabalho (se funciona para a wikipedia…). Basicamente, a internet anda perto de ser uma simulação de uma sociedade anarco-comunista, pelo que suspeito que as pessoas que “vivem” nela e “respiram” a sua cultura estão em risco acrescido de aderirem ao anarco-comunismo ou aos sincretismos entre anarquismo e marxismo que estão na moda, como os autónomos ou os comunizadores/apelistas; e os que não dão um salto tão grande (a maioria) tornam-se susceptíveis a apoiar partidos ou movimentos cujo programa seja uma combinação de alargamento do Estado social, “aprofundamento da democracia participativa”, permissividade nos costumes e desconfiança pela polícia (hoje em dia, na Europa, isso englobará a maioria dos partidos do Grupo da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica e praticamente todos os do Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia; em Portugal, há uns dois – um deles representado no parlamento – em que esse perfil encaixa quase como uma luva).

Mas agora vamos à parte divertida – tentar verificar isso recorrendo a sondagens ou estatísticas; para isso, recorri ao já nosso velho conhecido General Social Survey (usando este interface de pesquisa).

Vamos pegar nas variáveis INTWKDYH (horas passadas na internet num dia de semana) e POLVIEWS (que vai de “1 – Extremely Liberal” a “7 – Extremely Conservative”).

Colocando INTWKDYH(r:0-1;2-4;5-24) na “Row” e POLVIEWS(r:1-3;4;5-7) na “Column” (o “r:0-1;2-4;5-24” é para agrupar os resultados), e selecionando Output Options → Cell contents → Percentaging → Row, obtemos:

Variables
Role Name Label Range MD Dataset
Row INTWKDYH(Recoded) HOURS OF INTERNET USE ON WEEKDAYS 1-3 1
Column POLVIEWS(Recoded) THINK OF SELF AS LIBERAL OR CONSERVATIVE 1-3 1
Weight COMPWT Composite weight = WTSSALL * OVERSAMP * FORMWT .1912-11.1193 1
Frequency Distribution
Cells contain:
Row percent
-Weighted N
POLVIEWS
1
1-3
2
4
3
5-7
ROW
TOTAL
INTWKDYH 1: 0-1 26.1
125.5
37.0
177.7
36.9
177.6
100.0
480.8
2: 2-4 34.2
160.4
33.4
156.4
32.4
151.9
100.0
468.7
3: 5-24 34.7
87.0
41.0
102.9
24.3
61.0
100.0
250.9
COL TOTAL 31.1
372.9
36.4
437.0
32.5
390.5
100.0
1,200.3

Ou seja, os “liberais” estão sub-representados entre os que passam menos de 2 horas por dia na internet e sobre-representados entre os outros; já os conservadores estão sobre-presentados entre os que passam menos de duas horas por dia e sub-representados entre os que passam mais de 5 horas (o padrão é similar se substituirmos INTWKDYH por INTWKENH, número de horas no fim-de-semana).

É verdade que isso pode ser um artefacto de os jovens e jovens adultos tenderem mais para a esquerda e também passarem mais tempo na internet (mas, mesmo que seja o caso, acho que não invalida o ponto); vamos lá refazer as contas, mas só para pessoas entre os 18 e os 40 anos (apanhando os chamados millennials, que penso serem as pessoas nascidas entre 1982 e 2082, ou coisa assim).

No campo “Selection Filter(s)” vamos pôr AGE(18-40); os resultados:

Variables
Role Name Label Range MD Dataset
Row INTWKDYH(Recoded) HOURS OF INTERNET USE ON WEEKDAYS 1-3 1
Column POLVIEWS(Recoded) THINK OF SELF AS LIBERAL OR CONSERVATIVE 1-3 1
Weight COMPWT Composite weight = WTSSALL * OVERSAMP * FORMWT .1912-11.1193 1
Filter AGE(18-40) AGE OF RESPONDENT 18-89 0,98,99 1
Frequency Distribution
Cells contain:
Row percent
-Weighted N
POLVIEWS
1
1-3
2
4
3
5-7
ROW
TOTAL
INTWKDYH 1: 0-1 26.4
56.2
41.8
88.8
31.8
67.5
100.0
212.4
2: 2-4 40.8
106.4
30.6
79.8
28.7
74.9
100.0
261.0
3: 5-24 37.9
55.7
46.1
67.7
16.0
23.6
100.0
146.9
COL TOTAL 35.2
218.2
38.1
236.2
26.7
165.9
100.0
620.4

O mesmo padrão, se calhar até mais marcado.

Vamos agora controlar para habilitações académicas – vamos pôr no “filtro” DEGREE(2-4), pessoas que têm entre “2 – junior college” e “4 – graduate”. Resultados:

Frequency Distribution
Cells contain:
Row percent
-Weighted N
POLVIEWS
1
1-3
2
4
3
5-7
ROW
TOTAL
INTWKDYH 1: 0-1 33.8
67.8
24.5
49.1
41.7
83.5
100.0
200.5
2: 2-4 37.2
72.3
26.6
51.7
36.2
70.4
100.0
194.4
3: 5-24 40.2
44.6
35.2
39.0
24.6
27.3
100.0
110.9
COL TOTAL 36.5
184.7
27.6
139.9
35.8
181.3
100.0
505.8

A mesma coisa – mesmo apenas entre as pessoas com formação universitária, os viciados na net são mais “liberais”.

Controlando para localidade – pondo no filtro SRCBELT(1), apanhando apenas as 12 maiores áreas metropolitanas estatísticas:

Frequency Distribution
Cells contain:
Row percent
-Weighted N
POLVIEWS
1
1-3
2
4
3
5-7
ROW
TOTAL
INTWKDYH 1: 0-1 30.2
11.9
48.8
19.2
21.0
8.3
100.0
39.4
2: 2-4 53.9
20.3
22.9
8.6
23.1
8.7
100.0
37.5
3: 5-24 69.9
11.1
21.0
3.3
9.0
1.4
100.0
15.9
COL TOTAL 46.6
43.3
33.6
31.2
19.8
18.4
100.0
92.9

Isto já começa a chatear, não é?

Agora pondo tudo no filtro – AGE(18-40), DEGREE(2-4), SRCBELT(1):

Frequency Distribution
Cells contain:
Row percent
-Weighted N
POLVIEWS
1
1-3
2
4
3
5-7
ROW
TOTAL
INTWKDYH 1: 0-1 38.9
4.3
26.2
2.9
34.9
3.8
100.0
11.0
2: 2-4 53.6
7.7
36.5
5.3
9.9
1.4
100.0
14.4
3: 5-24 84.2
10.2
11.9
1.4
4.0
.5
100.0
12.1
COL TOTAL 59.2
22.2
25.5
9.6
15.3
5.7
100.0
37.5

Tão giro, não é? Parece uma escadinha; mesmo limitando a pesquisa ao núcleo duro “hipster” (millennials com formação universitária residentes em grandes áreas urbanas), o padrão de os habitantes da internet tenderem esmagadormente para a esquerda comparados com os que vivem no mundo físico mantém-se (ou até se reforça).

Indo ao oposto, e pondo no filtro AGE(41-99), DEGREE(0-1), SRCBELT(2-6), pessoas com mais de 40 anos, sem formação universitária e vivendo fora das principais áreas metropolitanas (o núcleo duro “redneck”?), aí a coisa muda um pouco, porque… não se conclui nada:

Frequency Distribution
Cells contain:
Row percent
-Weighted N
POLVIEWS
1
1-3
2
4
3
5-7
ROW
TOTAL
INTWKDYH 1: 0-1 21.7
28.1
40.3
52.3
38.0
49.2
100.0
129.6
2: 2-4 18.7
19.4
45.8
47.5
35.5
36.8
100.0
103.7
3: 5-24 26.3
12.6
33.5
16.0
40.2
19.2
100.0
47.8
COL TOTAL 21.4
60.0
41.2
115.8
37.5
105.3
100.0
281.1

Há uma ligeira tendência para a esquerda em quem passa muito tempo na internet, mas mal se nota. De qualquer maneira, não parece (pelo menos nos EUA) que a internet seja uma arma ao serviço da reação.

Agora, a verdade é que a questão original não era a internet em geral, mas as redes sociais em particular, mas imagino que haja uma relação entre as duas coisas (ou talvez não? realmente consigo imaginar um cenário em que as pessoas que usam pouco a internet, usem sobretudo as redes sociais, até porque é talvez o mais parecido com o mundo real; há tempos li que há 3 grandes maneiras de alguém obter informação na internet, cada qual com o seu site de referência: 1 – sabermos que assunto queremos pesquisar e ter uma lista de sites que falem disso e sejam linkados por muita gente; 2 – sabermos que assunto queremos pesquisar e ler um artigo escrito colaborativamente por uma mistura de libertários de esquerda e de direita e de pessoas que se interessam bastante pelo tema; e 3 –  os assuntos de que os nossos amigos e conhecidos estão falando; talvez o modo 3 seja particularmente atrativo para quem no geral até não gosta muito de computadores?).

Um ponto adicional – em tempos li alguém escrever que entre os participantes de uma dada comunidade on-line (que pelo que sei parece particularmente vocacionada para cromos) havia uma grande escassez do que ele chamava conservadores “God-‘n-guns-but-not-George-III”: os participantes eram esmagadoramente “liberais” (isto é, de esquerda), e mesmo a maior parte dos “conservadores” ia-se ver e eram era “libertários”, e os que sobravam eram quase todos neo-reacionários defensores de uma mistura de monarquia absoluta e feudalismo – já o conservadorismo norte-americano típico (o tal “God-‘n-guns-but-not-George-III”) era praticamente inexistente lá. Mas se isso for um padrão geral, e a internet até estiver enviesada à esquerda, mas entre os poucos direitistas que lá hajam, os ultra-liberais e os tradicionalistas até estejam sobre-representados, é possível que de uma certa perspectiva a internet até tenda mais para a direita; basta reclassificar a direita mainstream como “esquerda” e achar que só os tradicionalistas (e/ou os ultra-liberais) são “direita” para aí realmente a direita ter mais força na internet do que no mundo real.

[Talvez ainda escreva mais algo sobre isto, não sei]

2 thoughts on “Redes sociais, esquerda e direita

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