Cultura, tecnologia e instituições – uma hipótese

Ali em baixo, sugeri a ideia de que uma cultura que valorize mais a inteligência que a “inteligência emocional” – ou, noutras palavras, mais o raciocino lógico-abstrato do que a capacidade de relacionamento interpessoal – poderá tender a produzir simultaneamente mais progresso tecnológico e instituições inclusivas. Que raciocínio fiz eu para chegar a essa hipótese (que até prefiro que esteja errada – como bom esquerdista, prefiro explicações baseadas nas instituições e estruturas socais, que têm a implicação de que basta mudar “o sistema” para resolver os problemas do mundo)?

Vamos por partes.

Pessoas que prefiram o raciocínio lógico serão mais dadas a procurar soluções para os problemas, enquanto pessoas que prefiram as aptidões sociais valorizam mais o saber viver (e saber convencer os outros a saber viver) com os problemas; por exemplo, imagine-se que as pessoas que utilizam um dado sistema informático não gostam de algumas das coisas que trabalhar com esse sistema implica – uma pessoa mais virada para as aptidões relacionais reagirá a essa situação tentando convencer os outros que as vantagens do sistema suplantam os inconvenientes, que apesar de tudo é o melhor sistema disponível, etc. Já alguém mais virado para o raciocínio lógico reagirá à situação tentando aperfeiçoar o sistema, de forma a que deixe de haver razões de queixa. Assim, a preferência pelo raciocínio lógico tenderá a estar associada com maior progresso técnico.

Uma preferência pelo raciocínio lógico vs. aptidões sociais muito provavelmente estará também ligada a uma atitude de “eu digo aquilo que acho que está correto, por mais impopular que seja”; essa preferência pela busca da “verdade” em detrimento da aprovação e consenso social levará possivelmente a uma defesa da liberdade de pensamento e de expressão, e em política a uma oposição genérica a regimes autoritários.

Já no que diz respeito, não tanto à liberdade de pensamento ou de expressão, mas à liberdade de acção (nomeadamente no aspeto económico), a coisa talvez seja mais complicada – à partida, a preferência pelo raciocínio lógico é perfeitamente compatível com obedecer a regras, mesmo regras extremamente detalhadas ou minuciosas, como as regras de um jogo de xadrez, ou a sintaxe de uma linguagem de programação informática; mas provavelmente estará associada a uma preferência por regras mecânicas, automáticas e impessoais, em que está logo definido à partida o que se pode e o que não se pode fazer (como as tais regras do xadrez ou de uma linguagem de programação, ou as puras leis da física), e que podem ser tratadas simplesmente como constantes de um problema de otimização a solucionar, em detrimento de regras em que se esteja dependente de decisões humanas para saber se se pode ou não fazer alguma coisa (mais do que a liberdade, o importante será sobretudo o “estado de direito”; ou talvez a liberdade definida como “poder fazer tudo o que a lei permite”). P.ex., em economia não terão problemas de maior com impostos altos, nem com subsídios automáticos, nem com regulações a dizer claramente que é proibido fazer certa coisa, mas já terão com regulamentações vagas (estilo precisar de um parecer positivo do gabinete de gestão de uma área de paisagem protegida para poder abrir um restaurante), ou com subsídios ou isenções fiscais atribuídos caso-a-caso a investimentos de interesse estratégico (possivelmente aceitarão melhor a regulação a nível “macro” do que “micro”, pelo simples facto que é mais fácil estabelecer regras abstratas a nível “macro”).

Finalmente, é de esperar que prefiram o “estado social” (e quanto mais automático, melhor: um rendimento básico incondicional, ou um subsídio a que se tem automaticamente direito por se perder o emprego ou por os rendimentos baixarem a menos que “X” por mês, tudo bem; um programa de assistência que implique uma avaliação por assistentes sociais das necessidades daquela família, já não) ou então seguros (em que estejam mais ou menos predefinido os prémios a pagar periodicamente e os valores a receber em caso de “azar”) do que a caridade privada, em que estejam dependentes da boa vontade de vizinhos, amigos, familiares, colegas ou correligionistas (mas atenção que as associações mutualistas, para este aspeto, acabam por contar mais como se fossem uma forma de seguros – já que por norma têm planos de pagamentos predefinidos – do que como um exemplo clássico de solidariedade entre vizinhos).

Assim, poderia ser de esperar que a tal preferência pelo raciocínio lógico face às aptidões sociais viesse associada a progresso tecnológico, liberdade política, estado social e a uma economia mista com maior intervenção estatal nas grandes questões do que nas pequenas, explicando as tais correlações que andei a identificar nos posts anteriores (em que afinal o efeito causal não seria nenhum dos óbvios, mas uma terceira causa).

Mas também é provável que muitas das possíveis associações que andei a explorar neste post tenham sido muito chegar previamente a uma conclusão e depois ir à procura de mecanismos. Por exemplo, ali atrás argumentei que a preferência pelo raciocínio lógico viria associada a uma defesa da liberdade de pensamento e de expressão e portanto a tendências anti-autoritárias; mas inversamente, também se poderia supor que a preferência pelo raciocínio lógico (em detrimento, recorde-se, das aptidões sociais) viria associada a uma tendência para desenhar sistemas teóricos sem se preocupar com as pessoas concretas, e portanto a tendências totalitárias (ou, para elaborar uma teoria praticamente impossível de testar na prática, também poderíamos supor que tanto os regimes constitucionais liberais como os regimes totalitários estariam associados à tal preferência pelo raciocínio lógico, enquanto os regimes autoritários estariam associados à preferência pelas aptidões sociais).

P.S. – depois de escrever este post (largamente especulativo e que, em larga medida, até prefiro que esteja no geral errado – pelos motivos que expliquei no princípio), ocorre-me que esta hipótese talvez não ande muito longe das teses do Pedro Arroja sobre os católicos e protestantes…

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